LOURDES LEITE
PORTUGUÊS
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Você por aqui hoje? Eu estava ali desde quando? Há anos ! Estranha questão essa. Então não me viu? Desde quando não me vê? Sei que não sou visita constante, mas venho com frequência. Talvez seja porque não caminho nos lugares mais povoados. Procuro sempre a sombra de alguma árvore . Neste instante que estou falando consigo percebo que você já não me vê mais. Foi apenas o momento de passar por mim, deixou-me falando sozinha e seguiu seu caminho, que poucas vezes é o meu, e logo encontrou um grupo de mulheres que a saudaram com lenços brancos tremulando de alegria. Se eu fosse capaz, comprava também um lenço e me juntaria ao grupo que recebeu sua alegria com o sorrisos dele. Estou por aqui hoje. Sempre estive. Algumas vezes apenas me afasto e silencio olhando o que se passa ao redor de mim e das coisas. Que coisas não sei, porque há tempos que deixei de me preocupar em nominar o que estou vendo. É excessivamente, a coisA em si mesma. Não gosto! Até fico incomodada de me mostrar tanto, quando me ponho a escrever. Parece que é como se me despisse em público. Não! não é timidez, Não! (Espera um pouco)!!! Vou buscar uma laranja. OU quem sabe uma tangerina-mixirica que é para quebrar um pouco a sensação de fome. Não! Não me fale desta palavra. FOME. Neste domingo muitas pessoas foram à Igreja e ouviram missa. Ou pregação de pastores. Mas não deram de comer. A Fome leva a pensar na comida que leva a pensar em dinheiro que leva a pensar em crise financeira internacional. Tudo isso porque você passou por mim e me disse: Você por aqui hoje? Como se fosse uma coisa inédita. Já disse que não é. Não insista em pensar assim que está errado e não gosto que pensem errado. Por exemplo: se eu disser : nunca passei por aqui. É errado. Errado, já disse. Você não esperou que eu explicasse este pormenor, porque foi-se logo embora à procura de seu grupo e me deixou falando sozinha, como faço agora. Alguém me ouve? Ouve, sim! Esteja tranquila! Pode acreditar no que digo! Alguém ouve o que digo . Bom, desculpe, mas seria querer demais que eu diga quem. Não sei quem. Mas há alguém que me ouve. Minha neta me disse : “vovó, tenho uma amiga que fala comigo, quer conhecê-la?” eu disse que sim e ela me pegou pela mão e me levou até seu quarto e não estava lá sua amiguinha, que ela diz que só chega na hora de ela ir dormir. Eu compreendi perfeitamente. Aliás, coisa estranha: é com minha neta de dois anos e meio que troco mais sensações. Se eu lhe disser que eu sei que há alguém ouvindo o teclado fazer tlic tlic tlic, ela, com toda certeza, vai compreender. As crianças gostam dos hiatos, dos vazios entre o céu e a terra ... Eles não gostam que eu diga essas coisas, que acham sem nexo. Estou farta de lhes dizer que se dane o nexo. Há um medicamento muito bom, como todo medicamento, como toda gente sabe, que se chama NEXIUM... que me leva à trilogia de Henry Miller “Plexus, Sexus e Nexus”, conforme você, colega, sabe. Mas tenho certeza de que no meio do grupo em que está, no meio dos planos e conquistas que trocam entre si, nem sequer está ouvindo o que acabo de dizer sobre Henry Miller. Não faz mal. Ele já está acostumado a ninguém lhe dar ouvido mesmo, imagina alguém o ler. Ler é coisa que vai deixando nossa mente consolada, não é? Sei que você é uma devoradora de palavras. Porisso inventou uma Rede que juntou outras e outras e foi ficando incontrolável. Palavras que jorram, que se somam, que mudam de lingua, que são lidas em livros, em computadores, em salas de aula. TUdo isso porque você gosta tanto de ler. Acho! Não precisa perguntar. As pessoas sabem.Por isso sua pergunta me assustou tanto, como se eu tivesse deixado de pertencer, de fazer parte. Até pode ser, mas ninguém me anunciou. Você por aqui hoje? Será porque hoje era ontem que era Sábado e não Domingo? Nos domingos as pessoas se encontram em lugares variados, dependendo do sol...Minha netinha gosta de domingos, porque tem o pai só para ela. MEU pai já se foi para outro lugar daqueles que ninguém gostaria de ir, mas vai, queira ou não queira. Não adianta ficar correndo 10 kilômetros todos os dias, comendo folhas, nadando uma hora todos os dias, cuidar da saúde. Isto a mim me faz uma confusão! Porque vejamos, estou aqui hoje, apesar de ser um acontecimento raro, como disse a minha amiga quando me viu. Mas a saúde não se ganha ou se perde, há um clique qualquer que mexe com algum milímetro de célula num instante qualquer da nossa vida e aí a saúde começa a desaparecer.Começa a escapar de nossas mãos. Muitas vezes a criatura nem se dá conta. FOI assim com aquela amiga que de um momento para o outro se viu nas teias da doença, que nem quero me lembrar de como ela sofreu. É outra coisa que gostava de debater consigo, amiga. As pessoas gostam de falar de saúde. Não lhes apetece falar da falta de saúde. Como se uma coisa não fosse o avesso da outra. V0CÊ POR AQUI HOJE? Eu não deveria ter posto uma vírgula depois de AQUI e HOJE? Acho que sim! Mas não vou sujeitar esta conversa, que eu gostaria de ter tido com a amiga, em texto literário. A pergunta nada mais é que a expressão de surpresa por ainda me encontrar em luta com as palavras. Talvez haja negro demais. Um pouco mais de branco e ficaria cinzento e aí poderia acrescentar uma cor quente como o laranja. Laranja não é cor primária, diria o meu marido. EU sei! Eu sei! Deixem-me escrever da maneira que quero e de que necessito. Porque a companheira não sabe, nunca soube, nunca percebeu, mas sou deficiente na escrita de letras com sentido. Com começo e fim, digamos. Minha maneira de falar também é assim: Barroca. Excessivamente Barroca. Como a biblioteca de Ana Amália em Weimar. Se eu fosse uma biblioteca, queria ser a biblioteca de Ana Amália em Weimar. Doirado por todos os lados, teto enfeitado como um bolo de noiva, figuras espalhadas cheias de curvas , sem estorvar. E muitos, muitos, muitos livros. Todos encadernados e postos nas prateleiras de forma perfeitamente utilizável por quem tiver algum interesse , porque é uma biblioteca que se lê, onde se vivem os livros que ela guarda. AH, a cor púpura das paredes, das colunas, puxando para um rosado, que faz lembrar NADA. Você por aqui hoje? Estou aqui hoje. Estou sempre por aqui. Há muitas maneiras de estar aqui hoje. Uma delas é saindo daqui hoje.