TEXTOÍdolo desmoronado
Seguindo o rastro de um Ídolo para a realização dos meus sonhos e glorificação da minha existência, transportei-me às plagas mitológicas, onde ecos ressoam e repercutem imagens de belos deuses, com seus poderes divinos.
Zeus ofertou-me no seu Olimpo uma praia secreta. Meu pedacinho de mundo.
Ali edificaria a casa que protege o sonhador, envolvendo-me nas dobras do seu manto, onde reinaria paz e harmonia.
Naquela prata sem liga, eu erguia, dia a dia, um másculo corpo para ser meu somente.
Um Apolo sedento de amor para a plenitude dos meus anseios.
Os lábios sempre a postos para o meu beijo ardente. E os braços de Morfeu, para enlaçar-me quando o cansaço chegasse.
Que, sob o esplendor de Urano, o seu olhar fosse dirigido ao mundo onde só eu habitasse.
A Minerva pedi o perpetuar da essência de toda a sua sabedoria, para reger a paz e o amor da minha existência.
Com tanta divindade semeando em terra fértil, só poderia germinar um tronco forte, florescer e reproduzir a minha realidade!
Num afã desesperado, quanto mais areia eu sulcava, mais meu ídolo se erguia. Foi crescendo... crescendo...
E como um Deus Supremo, imperou meu Universo.
Postou-se em tão alto pedestal, no qual, por mais que me erguesse, jamais o tocaria.
Assim, tornei-me sua devotada e fiel súdita.
Qual um caracol, refugiei-me dentro da concha, deixando no rastro os desejos dos seus beijos e o calor dos seus abraços...
Como um fantasma resultante da minha inconsciência imbuída na desordem da minha desilusão, no cansaço do abandono, destruindo a carapaça, exclamei: Afinal! Que queres de mim, Amo e Senhor? Te tornaste o Todo Poderoso, reunindo todas as divindades em um só Deus?
No limiar das forças sobrenaturais, os deuses blasfemaram.
Géa ecoou, estremecendo a terra...
Tupã, na sua fúria, fazia os raios cruzarem os Céus com suas flechas flamejantes...
Em uma escuridão total, as estrelas se apagaram, e até os pássaros migraram.
Netuno, comandando um vagalhão, abriu suas entranhas, invadindo minha praia secreta. Desmoronou meu ídolo e desnudou-lhe a alma.
Então, vi que não era um Deus! E também não tinha aura.
Sua alma era negra como a noite e dura como um rochedo!
Chorei... chorei todo o meu desespero. Enquanto eu chorava, ele ria! Ria da minha dor, ria da minha desdita!
No Caos, no espanto, no desencanto, de mãos postas exclamei:
- Minerva, não ouviste meus clamores? A alma só a ti imploraria, pois sem a tua sabedoria jamais alguém a faria...
Assim, a minha praia secreta foi banida do Olimpo. Fiquei sem saber o que fazer e para onde ir.
Como um grão de areia na imensidão, fiquei tão só... com medo da solidão...
Poema publicado no Livro Ariadne e Poeticidade