ELIANE ACCIOLY
PORTUGUÊS
TEXTOS
 
TEXTO

OS PRESENTES DA NOIVA

No corredor, os presentes de casamento são presença assustando a mãe da noiva; a espiam, ela sente, e cada pacote tem mil olhos, ora doces ora malvados. "Credo", murmura fazendo o sinal da cruz. A filha? Hhhuuummm, perdida em lua-de-mel em ilha de nome complicado. Por não saber língua estrangeira a mãe não consegue falar o nome do lugar, ponto que permanece, para ela, no limbo dos indizíveis.

Após furacão de casamento - parentes hospedados, a festa - na casa antes arfante, sossego triste. Outro dia vê os embrulhos todos juntos, formando a silhueta de prédios altos como os do centro da cidade; escuta buzinas de carros, é testemunha de uma criatura sendo atropelada. Tomada de pavor se tranca no quarto. Quando seu homem chega da labuta, não encontra prontas a mulher nem a janta.



OS ATRAVESSADORES


Travessia, no arquipélago Fernando de Noronha, uma ilha tão pequena que poderia ser engolida por um tubarão, é a terra dos atravessadores, seres cujos corpos são feitos de fios os mais variados: alumínio, plástico, novelo de lã, arame, cobre, fios afetivos, e ainda linhas de desenhos.
Os atravessadores se manifestam nas mais diferentes formas. Podem aparecer como humanos, animais, anjos, demônios, ou como os ETs de Varginha. Esses seres pensam, sentem, constroem mitos e filosofias, são poetas, e têm olho de recém nascido. O mundo que os cerca está pronto há milênios, mas em cada olhar, para eles, um mundo novo se revela.
Os Atravessadores surgiram de desenhos, artesanias e outras artes plásticas. As palavras e textos que os contam vieram depois.



POEMA INÙTIL

Ser mãe é atávico:
mais mar que terra

O leite materno baleia e golfinho
vulcão e lava

Ser mãe é montanha lavrada gretada
deserto entre um ou dois oásis

É ser uma duna
que lá nos milênios foi ilha vulcânica
lavrada em lava

Ser mãe é ser um tanto
e quase nada 



A MORTE do GATO

Enquanto o gato que me habitava morria
sete vidas espertas e bem vividas moribundas,
um espelho explode um planeta
a noite escura cai na minha alma

Que mais em mim quebrando e se esvaía?

Como ficar sem os muros
as heras e unhas de gato
as noites de cios vadios
as brigas e a malandragem
os gritos na madrugada
a travessia de rua?

Sem o vício por sardinha
sem a cumbuca florida
de entornar leite ou água?

Sem o dengo
sem a manha
o novelo arrepiado
a poltrona beije rasgada
de afiar vinte garras?

Como largar o poder
de tremelicar e correr
ratazanas e baratas?

A oitava vida se vai, lunar,
em tranças pretas e prata

Nenhum príncipe para me acordar
mas também nenhuma torre
de onde ser libertada

Chegou a grande morte?


Passada a quarenta
brota de um verde tímido
o vigia guardião

grita notícias
da cidadela me arranca:


Ouça! O poeta forja mais um dia
palavra soando bronze
acorda a cidade inteira, escuta!

Um último suspiro mata a pena de mim:
abro cortina e persiana
com a força dançarina de mãos e braços
e felina, a isto não renuncio,
espreguiço para um sol acolhedor

Espanto a letargia com uma cascata gelada,
coisa que gato abomina

Escovo o cabelo, os dentes
visto velhas pantalonas
e descalça, me preparo para rodar
outras tantas milhas
por vigílias estreitas,
escarpadas, não mapeadas 



A SURPRESA 

O gato-maravilha que em mim morreu
muitas vezes retorna,
cara redonda e invisível

Sua sombra errante corre livre
na saudade de bandos vadios
arrepiando as ruas e as paredes
de meu corpo

Intumescente lábio de lua crescente
fixo só na aparência
ri de mim, Alice,
prisioneira dos contrários,
o país dos espelhos
onde me extravio

na aprendizagem banal e mágica
de ser sendo humana 



A MORTE do MESTRE

Ensinou-me de frestas de montanhas,
do murmúrio dos ribeirões,
a ordenhar vacas enquanto líamos Kafka

a sobreviver em casa costureira
feminina e desordeira
em meio a azáfama de tesouras e frufru de tecidos

Com ele aprendi de cercas de maracujá,
de cheiros de folha machucada
e dos mistérios gozosos
roxos e amarelos da flor guardiã
dos instrumentos da paixão

Tivemos lições de caminhar descalços
em caminhos pedregosos,
correr na praia e surfar o mar

Vivemos as artes do amor
e os perigos das curvas umidades
no calor e frescor de meu corpo
ao ritmo do dele se fundindo

Juntos apreciamos caipirinhas,
conhecemos vinho branco, tinto, rosado
e desprezamos no copo a borra do conhaque

Viajamos pelas diferenças entre o deserto
as estradas de terra e o asfalto
das ruas apinhadas das cidades

Um dia, entretanto, ele que jamais me deixaria
estende um mapa sobre seus joelhos 

pergunto-lhe: “Mapa do quê?”

“Uma cartografia de pessoas mortas”, me diz
apontando como quem nada quer:

”este ponto rajado aqui embaixo, sou eu”

parecia Kafka a ordenhar uma vaca

e em seguida, como quem nada quer,
coloca o mapa sob o braço, como se baguete
e sem outra palavra se vai
sem se voltar, um tanto claudicante

Em dias-noite mergulho
em tristeza, a mais trágica das criaturas
:o sol jamais retornaria,
o mestre o levara, como ao mapa

Quando, porém, contra minha vontade, o sol renasce
acende-se a luz de uma parcela minha
que ficava alhures e, como quem nada quer,
me humanizo mais um tanto

Percebo-me menos alegre, mais desassossegada e
uma inquieta incerteza quando descubro:

a partir de então, ninguém me guiaria