HEBE CANUTO DA BOA-VIAGEM A. COSTA
PORTUGUÊS
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RECORDANDO Acordei hoje muito contente. Também não era para menos! Sonhei com o sítio onde passei os meus primeiros quinze anos. Toda minha família estava lá. Que emoção! Revi minha casa, a égua Blanca que me levava, a galope, nos passeios pelo campo ... Nossa! Isso aconteceu no início do século passado! Vou ficar mais um pouco na cama e “curtir”, como dizem os jovens de hoje, todas essas lembranças tão distantes. Naquela época eu não sabia o que era poluição, não conhecia nada além da cidade mais próxima... Vivia feliz nesse ambiente simples, bem alimentada e saudável. Na zona rural as crianças têm tarefas, mas executá-las junto com os irmãos era até divertido. Os mais velhos diziam “serviço de criança é pouco, mas quem não aproveita é louco”. Havia, entretanto, algumas situações desagradáveis. Nos meus 6 anos o que eu mais queria era ter delicados sapatinhos para ir ao casamento do meu irmão mais velho. Chorei quando tive que usar as habituais botinas. - Para que outro par de sapatos quando os pés de criança crescem tão depressa!As botinas são melhores para se andar no campo. Protegem mais, dizia minha mãe. Ante tal lógica não havia argumentação. E os preconceitos, então! Meninas não precisam ir à escola. Minhas irmãs não se importaram, mas a minha tristeza era visível. Meu irmão condoeu-se e me ensinou a ler. Ah! Esse irmão! Sabia do meu interesse pelas coisas novas e procurava me por em contato com elas. Foi ele que me levou para ver o primeiro automóvel que apareceu naquele fim de mundo! Assim também foi com o trem... A viagem foi inesquecível... E o cinema, então? Mas, de todas lembranças, a mais emocionante foi a da descoberta do amor. Por causa de uma melancia acabei conhecendo o jovem que fez meu coração bater mais forte. Foi assim: Numa tarde ensolarada ouvimos o som de um berrante cada vez mais forte . Uma enorme boiada se aproximava e os boiadeiros cansados e sedentos bateram palmas junto à porteira: - A senhora podia nos vender uma melancia? Antes que minha mãe respondesse adiantei-me e disse que sim. Rapidamente fui buscá-la e, como tínhamos tantas, resolvi doá-la. Minha mãe só se pronunciou depois que os homens se foram tangendo sua boiada. A minha atitude independente, sem consultá-la, não era adequada para uma jovem de apenas 14 anos... Passados uns dias o boiadeiro nos visitou. Para mim, trouxe um leitãozinho e, para todos, um convite para uma festa na sua fazenda. Meu pai não gostou do convite e nem do tipo de vida dos boiadeiros.Novamente meu irmão intercedeu: - Que isso pai? As meninas precisam passear. Vou com minha mulher e posso leva-las. Ah! Que festa! Conheci o sobrinho do fazendeiro. Era um rapaz alegre, bonito, bom sanfoneiro e gostava de dançar . Foi amor à primeira vista. Logo que me viu, aproximou-se, deu- me uma rosa amarela e ao som das sanfonas dançamos a noite toda. Daí por diante, em toda festa, reza, churrascada estávamos juntos e encantados um com o outro. Os pais dele procuraram os meus e fizeram o pedido de casamento. A resposta do meu pai surpreendeu a todos. - Se vieram para isso podem ir embora. Não tenho nenhuma filha para casar. Não houve argumento que o fizesse mudar de idéia. Preconceituoso, achava que tanger boiadas não era trabalho e quem podia garantir que esses homens, ficando tanto tempo fora de casa, não tinham outras mulheres por esse mundo afora? Foi assim que meu primeiro amor foi sepultado. Muito triste, só me restou obedecer. Tive depois outros amores. Aos 17 anos conheci uma pessoa que mudou minha vida. Foi o despertar de um mundo novo. Esse amor me fez crescer. A possibilidade de conhecer coisas novas, estudar, vieram junto com o casamento. O que me foi negado na infância passei a ter em quantidade e qualidade. Meus filhos iriam estudar, ter liberdade de escolha! Pena que essa situação durou apenas 7 anos. Quando tudo indicava que nosso futuro seria promissor, infelizmente, meu marido faleceu. Anos depois, amei novamente. Precisava de alguém que entendesse meus objetivos e me apoiasse para realizá-los. Eu tinha filhos para criar e queria cumprir o que me propusera quando eles nasceram. Achei o homem certo e o amei sinceramente. Pois é, um simples sonho permitiu que eu fizesse essa viagem no tempo e relembrasse as peculiaridades dos meus três amores. Todos eles foram sinceros, intensos mas diferentes. O primeiro, pela descoberta de um novo sentimento, foi envolvente e, passados ¾ de século, lembro dele com doçura; o segundo, deu sentido a minha vida, me fez desabrochar e por isso foi fascinante; o terceiro, mais maduro, caracterizou-se pela solidariedade, pelo companheirismo. Beirando um século de existência, novamente só, conto agora com o amor de meus descendentes. De uma coisa estou certa: o amor, em todas as suas manifestações, é simplesmente maravilhoso! Chega de sonhar e recordar! É hora de me levantar e “curtir” o que a vida ainda tem para me oferecer... ------------- ------------ Prefácio da Antologia O protagonismo feminino em prosa e verso--------------------------------------------------------------------------O sonho da Joyce------------------------------------------- -------------------“Tendo um sonho, comece. A ousadia tem poder, magia e genialidade.”----------------------------------------------------------------Goethe --------------------------- -------- Seu sonho, tal como o meu, é dar às mulheres “um lugar ao sol” o que tradicionalmente lhe era negado. Desde minha infância não me conformava com essa discriminação. Era preciso fazer alguma coisa, Publiquei pequenos textos sobre o tema e junto as minhas alunas, jovens normalistas, insistia para que dessem um basta a esse “status quo”. Enquanto isso, a Joyce foi mais ousada e fundou ,em 1999, a REBRA – Rede de Escritora Brasileira, uma organização sem fins lucrativos Seu lema me despertou interesse: “A chama de uma tocha, se utilizada para acender uma outra tocha, irá multiplicar a luz em vez de roubá-la.” .Ao ler seus PRINCÍPIOS e FINALIDADES me encantei. Era tudo o que eu queria! Acabara de publicar um livro – Elas, as pioneiras do Brasil e percebi que não poderia ‘alçar vôo solitário”. Associar-me com alguém era preciso e meu livro enfatizava exatamente uma das finalidades da REBRA: “Manter viva, na memória cultural brasileira, as obras de nossas escritoras já falecidas, divulgando a história da literatura feminina do Brasil.” Imediatamente me associei a ela e fui a 2001ª inscrita. Hoje, são cerca de cinco mil associadas. Finalmente, conheci a Joyce e ela abriu para mim um leque enorme de oportunidades. Conheci muitas pessoas maravilhosas, graças a ela. Pude ultrapassar fronteiras e acabei tendo meus textos publicados em francês, espanhol, italiano, alemão, inglês e até em holandês. O estímulo que a REBRA me deu permitiu que, nesses dez anos, publicasse 13 livros em português sendo dois deles em francês e outros dois em italiano. Sou hoje, com muito orgulho, Sócia Honorária da REBRA e tive o privilégio da Joyce prefaciar meu terceiro livro: Elas vieram de longe ... ( Elles sont venues de loin...). Nesta 17ª.antologia – O protagonismo feminino na literatura - a ousadia, com seu poder, magia e genialidade; está presente em todas as 70 participantes, nas suas prosas e versos. Goethe tinha razão! Ainda mais, com o alargamento do meu espaço, a minha Terceira Idade está sendo muito prazerosa. Obrigada Joyce! ---------------------------------------------------------------- A MADRE TERRA E SEUS INQUILINOS----------------------------------------- DEUS, na sua inspiração, criatividade e poder, dedicou uma atenção especial a um pequeno planeta, a TERRA. Deu-lhe rios caudalosos, florestas magníficas, maravilhosos verdes oceanos, grande extensão de terras e a envolveu num céu cheio de estrelas e com a Lua iluminando suavemente a escuridão da noite. Deu-lhe também um Sol exuberante que dava lugar ao dia claro e aquecido. Cada pedaço do planeta tinha sua singularidade e com uma rica biodiversidade. Os climas eram variados permitindo condições especiais. Chuvas garantiam a produtividade da terra. Tudo isso era visível mas nas suas entranhas o planeta guardava riquezas inestimáveis. Tudo estava ali para ser desvendado! Quem se encarregaria disso? Deus, na sua infinita sabedoria, criou seres inteligentes dotados de livre arbítrio e cedeu-lhes essa sua criação esplendorosa. Como bom PAI deu-lhes liberdade, que cada um fizesse sua escolha de vida e se responsabilizasse por ela. Distribuiu-os em diversas regiões permitindo que cada grupo se ajustasse as suas condições e garantisse suas sobrevivências. Com inteligência, foram tudo observando, analisando, estudando, experimentando. Gradativamente foram chegando a conclusões valiosas embora muitas vezes tenham sido conseguidas “por ensaio, erro e acerto acidental”. Como usá-las? Chegara a hora das escolhas. Certas? Erradas? Todas as tentativas, ora eram promissoras, ora nem tanto e muitas vezes desastrosas. Assim foi caminhando a humanidade... E O PLANETA? Se um dia se sentia beneficiado, em outros, espoliado. Seus habitantes olhavam o céu e se encantavam com suas descobertas; explorando o solo, achavam tesouros e “nele se plantando tudo dá”; cruzando os oceanos entravam em contato com outros povos; caminhando para o norte ou para o sul encontravam climas gelados com outro estilo de vida; e as florestas, os animais? A água, produto essencial para todos? Havia ainda outro campo maravilhoso para ser desvendado: o próprio homem! Como mantê-lo saudável? Ah! Os mistérios de sua reprodução! E tantas coisas mais... Século XXI – Um balanço do que foi feito com essa maravilhosa moradia que Deus, graciosamente, nos cedeu sentimos um desalento. Muitos fizeram o “seu dever de casa” bem feito, fazendo escolhas perfeitas e sempre alertando sobre os malefícios da poluição, do desmatamento, do extermínio de várias espécies da flora e da fauna, do mau uso de coisas essenciais á vida (água, por exemplo) e, principalmente, da intolerância entre os povos... Ganância? Ignorância? Desrespeito? Tudo isso e mais algumas coisas? Acordem! O PLANETA está em franca decadência Ainda temos a chance de arrumar a “CASA”. Mãos a obra! O PROPRIETÁRIO agradece!!! ---------------------------------------------------------- VELHICE---------------------------------------------------------- Quando a velhice se aproximar, dê-lhe boas-vindas. Ela é um bem que nem todas as pessoas conseguem alcançar. Daí o seu caráter precioso que merece um cuidado especial para que se possa dela usufruir na sua plenitude. Ai daquele que a tratar com displicência! Ela demanda certa preparação e também a disposição de aceitá-la como época de colheita, de disponibilidade para a descoberta de aptidões até então desconhecidas. Lembre-se dos sonhos da sua juventude. Muitos eram atraentes, mas não garantiriam a independência econômica desejada e necessária no futuro. Era preciso abandoná-los, optar por uma profissão e, nela, precisava ser ótimo! Com isso, o restante do seu potencial foi apenas arranhado, só superficialmente explorado. Na Terceira Idade você está livre para dispor do seu tempo e dinheiro... Que tal voltar a estudar? Escrever? Pesquisar? Aventure-se! O seu compromisso é manter-se saudável. Programe-se. Faça caminhadas, alimente-se adequadamente, alargue seu círculo de amizades, participe das atividades da família...Se tiver netos desfrute da companhia deles mas, lembre-se, os tempos são outros.... Devolva à criança de hoje a riqueza de uma verdadeira infância. Conte, invente historias para os netos. Assim eles poderão imaginá-las a seu modo e desenvolver sua capacidade criativa.. Experimente! Mantenha-se atualizado e busque compreender as constantes mudanças do mundo. Tenha uma atitude positiva. Enfrente os desafios e viva! Só assim a velhice se tornará rica e prazenteira.