JANETE SANTOS
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Rubilota

O sol ainda não se punha no horizonte quando os indícios de uma grande tempestade se faziam notar. Até os vira-latas buscavam abrigo em lugar seguro. As ruas num instante ficaram desertas. A molecada que entulhava as frentes das casas comerciais ou de locais que denunciassem um bom ponto para uns trocados dispersou-se como fumaça ao vento. Aparentemente, Rubilota era a única criatura que parecia indiferente ao temor que se apoderara da população daquele protótipo de cidade. Era uma cidade praticamente desconhecida do resto do país.

A chuva principiou. Enquanto todos procuraram esconder-se, buscando abrigo como crianças temendo o escuro, Rubilota saiu às ruas pulando à semelhança de um macaco agitado e fazendo caretas como um lunático. Na realidade, ele sempre fora tratado pela população como um lunático. Esteve inclusive várias vezes internado no manicômio da cidade, mas, como geralmente era dócil e brincalhão, não chegava a receber tratamento de choque, o que era comum, segundo um dos funcionários daquele estabelecimento. Para as crianças, ele servia de brinquedo vivo. Sempre que passava por local onde havia grupo delas, Rubilota tinha de dançar a dança da corda: duas crianças, segurando cada qual uma ponta da corda, perseguiam-no por um bom trajeto, com o resto da turma atrás gritando e rindo, e o pobre pulava desengonçado até que a meninada se cansasse. Aquilo aconteceu uma primeira vez casualmente e depois virou costume. Sempre que se juntavam mais de três crianças, uma delas logo buscava em algum lugar uma corda, na esperança de fazer a festa com o coitado, caso o encontrassem. As crianças mais tímidas tinham medo dele. Nestas, os pais conseguiam incutir o medo da criatura através das ameaças sobre mau comportamento: “olha, menino (a), se você desobedecer o papai ou a mamãe, o Rubilota vem te pegar”.

A cidade era uma ilha cercada por águas generosas de um rio muito famoso, o qual desaguava num oceano em cujas águas se podia penetrar, a partir do porto local, depois de duas horas navegando-se em barco comum. Demorava, mas quando Rubilota ficava irado, depois de bater de porta em porta pedindo comida e recebendo na cara baldes d’águas das donas de casa ou nas costas vassouradas dos machões, amaldiçoava a cidade e os moradores, assegurando que as águas também ficariam iradas e engoliriam a todos.

Quanto mais a grande tempestade se manifestava, mais Rubilota se alegrava. Ligaram para o quartel da polícia pedindo que se prendesse urgentemente o lunático, pois os habitantes da cidadela partilhavam unânimes da crença de que Rubilota era o responsável pela fúria da natureza e acreditavam que, assim que o mesmo fosse sedado, ficando calmo, a tempestade também se acalmaria. O comandante da PM até tentou executar o desejo dos cidadãos, mas a tempestade veio com tal veemência que destruiu logo o pavilhão onde este se encontrava. O quartel fora construído próximo às margens do grande rio. E assim se seguiu a fúria das águas, pondo abaixo casas, barracos, prédios do governo (não havia na cidade edifício com mais de três andares) e tudo que estivesse em pé, inclusive uma fortificação de pedras sobrepostas construída na época dos escravos e cujo alicerce de mais da metade de sua área servia de quebra-mar. A chuva surrou o lombo de todo organismo vivo ou inerte e as águas do rio se fizeram ondas gigantes e varreram a cidade de ponta a ponta. Não sobrou nada. Nem ninguém. Exceto Rubilota que, por providência desconhecida, foi encontrado na praia de uma outra cidade estirado pelado com as nádegas expostas ao sol, escavando, com seu ronco de carro velho, buracos na areia.

O testemunho de um dos banhistas que o levaram ao hospital foi de que o náufrago dormia o sono tranquilo de um bebê. Assim que recobrou a consciência, Rubilota pôs-se a narrar a façanha da natureza em sua cidadezinha. Todos se apiedaram dele. A história que ele contasse era de imediato crida pelos ouvintes, porque também estes sentiram o abalo de chuvas fortes naquele período. Passou a ser um homem respeitado pela comunidade local e honrado pelos escritores, que viam em suas narrativas inspiração para novas obras literárias. Não se sabe como, mas a cidade simplesmente desapareceu do mapa. Rubilota passou a ser o único documento histórico de sua existência, enquanto lhe deram crédito. Tanto que uma equipe de arqueólogos veio de um outro país para constatar se a cidade existiu um dia ou não. Ao final de árduos anos de pesquisas, a constatação: a cidade nunca existiu. Com isso cessou a paparicação a Rubilota. De irrepreensível cidadão e honrado intelectual, passou a ser considerado um demente, isto por que insistia em dizer que sua cidade um dia existiu. Desprezado pelos amigos e desacredito pelo patrão, para quem trabalhava como revisor de textos, Rubilota voltou às ruas maltrapilho e desajeitado. Foi internado numa clínica para doentes mentais e lá morreu de tédio.

Dois séculos depois de sua morte, às margens do maior rio do mundo, foram encontrados ruínas de um forte e mais alguns destroços de uma cidade que teria se chamado Rubilândia e que teria submergido como consequência de um encontro trágico entre uma tempestade e um maremoto.

Passado de pai para filho, como as histórias antigas, o mito do único sobrevivente, Rubilota, fervilhou na imprensa moderna por um bom tempo, mas não pôde ser comprovado cientificamente porque não havia registro de sua existência nem em cartórios, nem em departamentos de polícia, nem em hospitais, muito menos em manicômios... Havia somente referência, numa obra literária antiga, de um personagem lunático que teria sobrevivido a uma enchente de grandes proporções. Agora Rubilota sobrevive apenas em literatura de histórias fantásticas.

Do livro (Des)Aprisionamentos: crônias e contos (Janete Santos


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Um singular poeta alagoano - Homenagem póstuma

Um dia com o doutor Murilo Villela ou: visitando ‘justamente’ um homem sedutor


Inicialmente, ele nos mostrou, com muito tato, numa satisfação contagiante, como manipulava a natureza e a seduzia, a fim de ter a presença constante, em sua varanda, de inúmeros passarinhos (en)cantadores. Para quem carregava a fama de conquistador e sedutor de belas mulheres, aquilo era apenas a extensão de sua mania donjuanesca. Semelhantemente ao amparo cavalheiresco que sempre estendeu às suas ex-companheiras, bem como o fazia à sua atual e muito amada esposa, dona Conceição, nos quase cerca de vinte anos de convívio com ela, amparava assim também outras delicadas espécies que, com sua beleza vigorosa, manipulavam-no e o subjugavam nesse jogo sutil da sedução, em que são nebulosas as fronteiras da alternância entre caça e caçador. Oferecia-lhes nada menos que um bosque em seu quintal, bem nutrido de harmonia verde, entremeada com o colorido que só tal viço faz prosperar.


Os peixinhos fritos que nos ofereceu como petiscos antes do almoço, a serem saboreados da cabeça aos limites da crocante calda, foram pescados por ele mesmo, e pareciam desenhados à mão, tal a simetria refletida na bandeja.


O que mais me atraiu a atenção, porém, foram as pedrinhas que ele catava no rio de Tocantinópolis, durante suas meditações aquáticas, na companhia de sua embarcação preservada com muito capricho. Ele se entregava candidamente a um laborlazer só compreendido com o devido respeito, na sua dimensão de ócio criativo, por poetas ou amantes desta arte inútil e deliciosamente gratificante que é a poesia: ele também era poeta em prosa e em versos.


Ao rememorar o modo como ele explanava sobre a forma das pequeninas contas de rocha, justificando sua preferência pelas mais esféricas e mais bem esculpidas pelas águas ora escandalosas, ora soturnas daquele rio, só me vem à mente o redondo e bem lapidado senso de justiça que animou este, já saudoso, homem-poeta durante sua vida toda: abdicou da maior parte de seus bens em favor dos menos afortunados, e dedicou-se de corpo e alma à arte do socorro ao próximo. Mais que ser um mero bom médico em horário de expediente, vivia a medicina em tempo integral, pagando, muitas vezes, inclusive os remédios que fornecia aos mais açoitados pelas escandalosas chibatadas da falta de oportunidade na vida ou pelas soturnas opções que esta lhes oferecia.


Ao fazer o balanço de nossas vidas e ao cotejar o quantitativo de pessoas ilustres que conhecemos, o mais relevante, para uma mentalidade não cauterizada, é poder contabilizar, dentre estas, pessoas justas ou com notável senso de justiça (como doutor Murilo), que iluminaram nossa experiência terrena, em meio a tantas arrogantes vaidades que muitas vezes nos embaraçam o entendimento.




Janete Santos


membro da ACALANTO
professora adjunta do curso de Letras da UFT
Nota:


O médico, escrivinhador e poeta Murilo Vilela, sobrinho do ex-senador Teotônio Vilela/AL, desprezou o convite feito pelo tio para assumir posições confortáveis em Brasília. Doou a fazenda recebida como herança dos pais, no interior do estado de Alagoas, aos trabalhadores rurais sem-terra que lá habitavam (seus empregados), pois, segundo ele mesmo fazia questão de justificar, tinha com que ganhar a vida (era médico) e aquelas pessoas tinham arrematado bem menos dela (da vida). Como médico reconhecidamente solidário, atuou por décadas com sua medicina no interior (extremo Norte) do estado do Tocantins (Tocantinópolis), com a preocupação maior de cuidar dos doentes com indiscutível dedicação, sem discriminação, independente das condições financeiras que estes tivessem. Uma das últimas mostras do desprendimento que lhe era peculiar foi que, após sua morte em 19 de maio de 2011, ao se fazer o levantamento dos poucos bens que ainda possuía, descobriu-se que a clínica que ele havia comprado de outro médico, e onde atendia quem tinha condições de pagar e quem também não tinha, ainda não havia sido passada oficialmente para seu próprio nome. Por sorte, ou por justiça para com a memória de um homem que soube valorizar tal prática, o médico que lhe vendeu a clínica ainda vive e não se negou a oficializar na justiça o negócio fechado havia anos, coisa de gente "das antigas", para quem a palavra oral tem o mesmo, ou até mais, peso que a palavra escrita.


Murilo era cronista, contista, poeta cordelista, repentista, sonetista, modernista etc., mas deixou apenas um livro (em prosa) poético publicado. A ACALANTO, academia de Letras local da qual fazia parte, prepara, na pessoa dedicada de um de seus idealizadores/fundadores e atual vice-presidente, José Francisco Concesso, uma obra a ser publicada em breve, com dados biográficos e parte dos escritos avulsos dessa bela pessoa (Murilo Vilela) que, pela convivência, aprendemos a admirar. E julgamos uma pena o Brasil, na sua vasta extensão, não ter tomado conhecimento de sua existência.


Caso julguem relevante esta pequena homenagem, ajudem a divulgá-la Brasil afora.


by Janete Santos







POEMA É PAIXÃO

o tecer poema é gostoso
mesmo que débil se mostre o projeto
e a finalização nem aconteça
(muitos dos concluídos
destinam-se, ‘pobrecitos’,
à solidão das gavetas)

enquanto o poema inventamos
ou o copiamos
(inconscientemente, é verdade,
_ já que tudo é também já-dito!)
nos excitamos com a possibilidade
(que não deixa de ser vaidosa)
de criarmos algo
não apenas diferente
mas especial
algo que, com os mesmos ingredientes:
a palavra e a não-palavra,
possa transformar
ou transformar-se
(n)as possíveis leituras,
(em)os possíveis sentidos,
(d)os possíveis leitores

fazer poema durante dá gosto
pois se há desgosto
é só no resultado
quando o esforço louco-apaixonado
ao fim do processo chegou


COMPANHIA NOTURNA

o dia se camufla
de noite
para vagabundear
com quem sonha
ou insônia



INVEJA

viu o solitário a andorinha
voando leve e contente
com suas maninhas
aos céus lançou pequena prece
trocar sua solidão longa
pela vida curta e feliz
da avezinha


(Do livro Inquietações - Editora Kelps) 

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o cemitério é uma vila pacata
nela ninguém morre de alegria
e toda ansiedade ali se mata



ORIENTE MÉDIO


Paz
Harmonia
Canto
Poesia

No caos

Guerra
Injustiçada
Choro
Agonia

Normal




ESMIUÇANDO-ME

buscando me conhecer
me reconheço no outro
no outro me reconheço
meu eu de mim é bem pouco

meu eu de mim, quase morto,
sou eu vivendo absorto
na vida e a contragosto
de ver-me a mim noutro rosto

e sendo o meu eu o entreposto
do outro e do outro num rosto
sepulto o meu eu no desgosto
de ser-me não eu mas o outro


SOU CASTA

é fato

encaro
tenho faro
estou farta
de lábia
de tato
descarado

quero teu 
dardo
quebrado
e arruinado
teu orgulho
parvo

sou casta



DESABAFO

não desabafo
o abafado fardo
que me abafa

eu sempre abafo
o desabafo do coração
abafado em mim



PRODUÇÕES

se cartas de amor 
têm de ser  "ridículas"
para ter valor,
não condene o povo
o poeta novo
que apaixonado
faz poema bobo


(Do livro Tecendo Imagens- Scortecci)

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POEMA  QUEBRADO

foi requebrando
meu poema
quebrado
pra que você
lendo-o bem o
amalgamasse



MINIMAGEM

pintei um quadro
pintei um rosto
torto
vivo
morto
para o olho
que não me
quer ver



SUB-REFÚGIO

o vazio reclama mais espaço
para acolher
os que nele se refugiam



SUSSURRO

seu silêncio dói
seu silêncio rói
seu silêncio mói
essa minha 
saudade
silenciosa


CLEMÊNCIA!

fumaceiro
cheiro
muito cheiro
mau cheiro
podridão farta
urubus passeiam

quadro apoético
poesia engasgada num baile
de vermes

nem poeta romântico se bandeia
nem mais marianos quintaneiam
só a imprensa
realista
naturalista
sensacionalista
se importa
se der ibope

todos passam de largo
do chão que me acolhe

todos passam de largo
do lixão que me engole


(do livro Retratos Paralelos - Scortecci)

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VIAGENS (conto)


A despedida numa simples viagem pode causar ou não dor. Depende muito de quem, para onde e como se viaja. Uma viagem de férias, por exemplo, não gera tanta angústia na hora da partida, uma vez que é como se fosse um prêmio, mormente para quem parte. Viajar, passar uns diazinhos fora para logo em seguida estar de volta, é uma coisa boa. Viagem a estudo ou a trabalho por longo período produz sim um certo mal-estar. Viagem de mudança definitiva dói. Dói muito. Mas, decerto, a última viagem, aquela para a eternidade, é a pior. Pelo menos para a maioria das culturas.

A viagem à qual me refiro agora e da qual participei por um momento como observadora histórica foi realmente uma viagem histórica. E assaz dolorosa. E não se tratava da última viagem. A população da Terra já havia ultrapassado o limite que o planeta poderia sustentar. Aqui não é o caso de comportar. É de sustentar mesmo. Em vários aspectos. A corrupção alcançara proporções aterradoras. Os governos haviam se unido a fim de tentar conter o aumento desenfreado do banditismo em todos os setores da atividade e relacionamento humanos, tentado diminuí-lo até mesmo nas corporações de comando do planeta. Além do que não havia trabalho para todos, nem alimento, nem migalha de terra, nem espaço para se construir mais arranha-céus. Precisava-se diminuir a quantidade de gente respirando o mesmo ar.

Com a tecnologia avançada, os cientistas estavam encontrando soluções paliativas e outras de efeitos definitivos para a diminuição e aniquilamento da poluição. Entretanto, era, de fato, necessário diminuir o número de usuários e parasitas no planeta.

O projeto de se desenvolver colônias na Lua já era uma realidade, mas a viagem nos ônibus espaciais correspondia às excursões das antigas naus pelo Atlântico. Devido ao sistema das estruturas construídas na lua, que comportavam o oxigênio, as quais tinham a forma de um casulo cósmico cravados em solo árido, estar ainda em fase de teste, para lá não se podia ir e vir com a facilidade que alguns imaginariam. Apenas as tripulações autorizadas, cujos membros haviam aceitado a missão de viver, de certa forma, como sacerdotes espaciais, é que tinham condição de fazer viagens periódicas entre lá e cá. O perigo de contaminação dos casulos era um fato. Dessa forma, quem fosse para lá habitar passava por uma espécie de esterilização. Daí, uma vez lá dentro, se saísse, não poderia sobreviver, pois seu organismo fora reestruturado para se adaptar ao novo mundo, através de um avançado processo de transformação cujo metabolismo era impulsionado artificialmente e para o qual não havia reversão. O organismo das pessoas ficava, depois da esterilização, altamente fragilizado para a convivência na Terra, impedindo-as de novamente entrarem em contato com seus conterrâneos que aqui permanecessem. Esse processo permitia aos habitantes dos casulos compartilharem da limitada produção de oxigênio que a Ciência conseguira criar, além de poder ingerir e processar a nova forma de alimentação química.

Os “sacerdotes espaciais” doavam suas vidas para que os colonizadores pudessem sobreviver pelo tempo estimado, até a evaporação de seus corpos, visto que alguém precisava fazer a manutenção das construções, meios de comunicação e das fábricas lá existentes, transportando o material necessário e reciclando a lixeira lunar, apesar do alto nível de informatização dos casulos. A tripulação sofria uma mutação orgânica que lhe permitia entrar e sair do casulo sem contaminar e sem morrer de repente, mas estava ciente de que na Terra não poderia também viver normalmente com os demais e que a duração de sua vida, pelo novo metabolismo, seria reduzida. Esse trabalho era como o alistamento para a guerra, numa escala menor e seleção maior.

Viajar para lá não era um prêmio, como uma viagem de férias. Nem se podia amenizar a dor como se fosse uma viagem a negócio ou a trabalho por longo tempo, com retorno certo. Também não era apenas como uma simples viagem de mudança definitiva para outra cidade ou país. Era pior. Era como a última viagem, a viagem para a eternidade, a própria morte. Só que pior ainda. E por conta disso havia uma seleção da população que deveria ser mandada logo para lá, a fim de se diminuir os problemas por aqui e de se permitir a continuação do aumento, reduzido ao extremo, do índice de natalidade. Mesmo com todas as mulheres tendo a madre fechada após o primeiro filho. Aqueles considerados socialmente desajustados, políticos vistos como agitadores ou suspeitos de corrupção, cidadãos legalmente flagrados no banditismo e mais alguns inocentes parasitas, culpados apenas por serem pobres ou doentes, compunham a enorme lista dos selecionados a abandonar o solo de onde reconheciam fazer parte.

Quando cheguei para presenciar a ida dos condenados ao exílio cósmico, fui notificada de que aquela não era nem a primeira nem a segunda leva que partia. Outras já haviam sido enviadas para lá havia algum tempo. Fui designada para apenas registrar o momento ímpar dos que se despediam e seguiam para aquele confinamento na Lua: a despedida. Tentei cumprir com imparcialidade minha missão. Mas por dentro minha alma se rasgava, condoendo-se com a angustiada expressão, mistura de torpor e desespero, que se estampava naqueles olhos que eu, aparentemente, fitava com indiferença. Eu estava à porta da aeronave vendo os últimos passageiros que subiam e seguiam em frente sem querer deixar de olhar para trás e que se apresentavam escoltados pela segurança da base de lançamento. Creio que, por mais que me esforce, não conseguirei aqui descrever o que captei naquelas fisionomias e o que o contato com aquelas pessoas me fez sentir. Os familiares dos que partiam olhavam para seus amados como se estes fossem recém-defuntos. A expressão dos que ficavam era a de um pai impotente sofrendo ante os ultrajes que o filho recebia sem nada poder fazer. Mas a dor maior era de quem partia. Eu quase podia tocar sua angústia, seu desespero, sua paixão aflorada ao último grau, de tão forte que era a ponto de parecer palpável. Paixão de quem perde tudo num só momento. Estes não perdiam apenas o direito de viver em sua pátria. Perdiam o direito de respirar oxigênio natural, de degustar os sabores da Terra, de ser humanos como os outros, de visitar o túmulo de seus entes queridos, de acreditar num possível reencontro com seus amados. Perdiam o direito de, ainda em vida, povoar o planeta onde nasceram. Perdiam sua identidade. Experimentavam, na verdade, uma prévia da morte, cuja dor maior era ter claro na consciência a dimensão da perda definitiva e irreparável do mundo que tanto amavam. A minha dor também não era pouca. Eu desejei ardentemente poder impedir aquela partida. Queria livrá-los, socorrê-los. Amei-os como a mim mesma. E senti como é terrível amar e não poder proteger a quem se ama. 


SENTIMENTOS COMPARTILHADOS (crônica)


A amizade é uma das iguarias mais finas da alma humana. Há quem objete que não só da alma humana, do cão também. Afinal, quem nunca ouviu história de cão que prefere morrer a abandonar seu dono? Pois é, então admitamos: nesses dois reinos animais há esse tipo de sentimento elevado.

A felicidade completa de alguém, mesmo que momentânea, exige que aqueles (seus amados) que estejam ao seu redor gozem da mesma satisfação: é pouco provável que alguém consiga ser ou sentir-se feliz, de fato, num meio onde os que o cercam, e aos quais ama, sejam ou estejam infelizes. A felicidade verdadeira requer sempre ser compartilhada.

Da mesma forma, se nosso amigo, amigo de verdade _ aqui não há lugar para pseudo-amigos _ estiver feliz, dependendo de nosso grau de amizade por ele, sua felicidade pode também nos contagiar, muito ou pouco, mas sempre contagia: só amigos de verdade são capazes de se alegrar com a felicidade um do outro. O inverso, entristecer-se com a tristeza, também é verdadeiro. É deste sentimento inverso, do qual compartilhei com alguém, que agora pretendo partilhar com o leitor.

Consolata é uma amiga de longas datas. É uma pessoa cujo caráter muito admiro. Não é de duas palavras: com ela é sim, sim, ou não, não. Não deixa os problemas ficarem maiores que sua estrutura delicada possa suportar. Não costuma trair os amigos. Não esconde que, para si, as amizades são como o vinho: quanto mais antigas, melhores. Sabendo disso, jamais ambicionei tomar o lugar de suas amizades anteriores a mim. Creio que compreendo seu juízo de valor por, na realidade, pensar e agir do mesmo jeito. Temos muito em comum: ambas somos, entre outras coisas, assaz tagarelas. Adoramos falar de nossos pontos-de-vista sobre qualquer questão. Nunca nos desentendemos, mesmo que pensemos diferente sobre algum assunto. É, pensando melhor, vejo que nossas afinidades se justificam por partilharmos o mesmo caráter. Não só os opostos, mas também os parecidos, se atraem, tudo é relativo.

Entremos agora no mérito de nosso título. Num domingo, enquanto eu e Consolata voltávamos da igreja matriz, no centro de Macapá, percebi que ela se mostrava excessivamente lacônica. Tal comportamento não tinha nada a ver com sua personalidade, mesmo porque seu temperamento sempre fora deveras estável. Sua estabilidade emocional é outra característica que muito me fascina: pessoas explosivas suscitam-me reservas. Em minha casa, enquanto eu despejava o delicioso suco de cupuaçu nos copos sobre a bandeja, Consolata participava-me sua aflição: perdera um ente muito querido. Como não o conhecesse, como nunca estivéssemos estado juntos, ou melhor, se um dia o encontrei em casa de Consolata, nunca o notei, por tudo isso, não me condoeu a alma por ele. E, naquele momento, sinceramente, nem por Consolata. Sei que esta atitude contradiz a tudo o que falei anteriormente, mas logo você me dará razão. Ainda mais quando souber que minha atitude de indiferença morreu assim que Consolata se retirou após lhe ter ministrado algumas palavras corriqueiras de consolo.

Quando a vi seguindo triste rumo a sua casa e limpando os olhos discretamente, uma tristeza singular apoderou-se de mim: minha amiga estava triste, senti-me impelida por uma força metafísica que me compeliu a compartilhar aquele sentimento. Entrei em meu quarto e fiz o que o Mestre orientou: dobrei meus joelhos e, com profunda compaixão, chorei. Chorei e fiz a Deus uma prece sincera por Consolata. Desejei veementemente que o Senhor a confortasse pela perda do querido bichano: o Fofucho, seu gatinho de estimação. Claro, não vou mentir. Não senti pena do Fofucho. Ele era só um gato e certamente já vivera suas sete vidas. Chegara a hora de dar sossego aos ratos e de diminuir as despesas à Consolata. Mas, creia-me, doeu-me tanto ver minha amiga triste que, se aquele gato revivesse, acho que eu seria capaz de matá-lo de novo imediatamente, antes que Consolata tomasse conhecimento de sua ressurreição, para não vê-la, em outra ocasião, novamente de luto e abatida. 


CONSCIÊNCIA ANIMAL (crônica)

Tudo estava pronto: anzol, isca e linha de reserva. Chapéu de palha na cabeça, mochila velha nas costas e os sanduíches com suco em recipiente apropriado. Agora era só pegar o carro e se dirigir à rodovia Duque de Caxias, onde fica a Lagoa dos Índios.

O pescador não era um nativo. Era mais um turista de fim de semana. Haviam falado a ele sobre o lugar como um excelente anti-estressante, em Macapá. E era mesmo. Calmo, águas mansas, vegetação de muito viço, com uma ventilação favorável. E este só queria o prazer de comer nesse dia peixe fresco, fruto de pescaria própria.

O pescador era um solipsista, e queria ver o que sua mente poderia projetar para eliminar a fadiga da qual estava convencido.

Junto a uma das margens, sentou-se e, num olhar minucioso, radiografou o lugar. Baixou a cabeça e voltou-se para as águas, que matizavam um topázio alaranjado. Vendo uns peixinhos, pegou pela linha do anzol e mergulhou a isca. Aqueles rapidamente fizeram um círculo em torno da presa, e, com suas bocas redondas, já se posicionavam para cutucá-la. Mas um outro peixinho, maior de todos, como a beijar-lhes a boca freneticamente, expulsava os coleguinhas e punha-se a mirar os olhos do pescador. Este, intrigado, convencia-se de que aquilo era apenas ilusão mental, envolto, porém, no dilema: o peixe maior era o mais egoísta ou o mais superprotetor do pequeno cardume de acará? Contudo, refletindo sobre a astúcia do peixe, considerou que o bicho não podia ter consciência e arrematou: é só um peixe arisco.

O pescador de primeira empreitada puxou a isca. Esperou um tempo e recomeçou o processo por mais duas vezes. Os peixinhos idiotas continuaram tentando beliscar a isca, mas o peixe experiente pôs-se ininterruptamente a impedi-los e a mirar o pescador com ares de pajé.