MARLUCE PORTUGAELS
PORTUGUÊS
TEXTOS
 
TEXTO

Eu vou cantar o meu rio


Eu vou cantar o meu rio
meu rio de muitas voltas
mil meandros tem o meu rio
O meu rio Juruá

Eu vou cantar o meu rio
meu rio de margens largas
como é bonito o meu rio
O meu rio Juruá

Eu vou cantar o meu rio
meu rio de terras caídas
barrancos toldam o meu rio
O meu rio Juruá

Eu vou cantar o meu rio
meu rio de aves ligeiras
garças voam sobre o meu rio
O meu rio Juruá

Eu vou cantar o meu rio
meu rio cheio de estórias
lendas, causos contam o meu rio
O meu rio Juruá

Eu vou cantar o meu rio
meu rio de tantas lembranças
como é bom lembrar o meu rio
O meu rio Juruá

Marluce Portugaels
Manaus, novembro 2009



Ser mãe sempre será desdobrar fibra por fibra o coração 


Ouvindo as declarações de jovens mães sobre seu encantamento com a maternidade, aliado ao sentimento de responsabilidade pela vida que geraram, não há como negar a perenidade das palavras de Coelho Neto em seu clássico soneto Ser Mãe. Há quem não acredite no que diz o poeta, mas mesmo os céticos devem concordar com a beleza do poema. Apesar da modernidade da vida, não caiu de moda o verso “todo o bem que a mãe goza é bem do filho”. 

Mais uma vez comemoramos o Dia das Mães, e, deixando de lado o aspecto comercial da festa, todos, adultos e crianças, somos levados pela magia da celebração a tecer louvores àquela que nos deu a vida, e que, tão generosamente, devotou grande parte de seu tempo a se ocupar de nós. Sim, porque precisamos considerar, além dos nove meses de gestação, os cuidados com os delicados primeiros anos de vida, a incansável luta com amamentação, vacinas, doenças infantis, corridas para médicos, brincadeiras em casa e no parque, carinho que só a mãe sabe dar. Isso só para começar, porque o trabalho maior começa mesmo com a pré-escola, continuando com a escola, indo pela vida afora. 

Minha mãe sempre repete que mãe é tudo igual, só muda o endereço. Pensando nesse aforismo, lembrei-me, com certa nostalgia, de quando eu era criança, no alto rio Juruá, com nossas mães se reunindo, depois do jantar, e, enquanto botavam a conversa em dia, não tiravam os olhos de seus rebentos que brincavam no terreiro. Os pais geralmente estavam ocupados com outros afazeres, mas, as mães tinham como dever primeiro tomar conta dos filhos e não deixar que nada de mal lhes acontecesse. 

É claro que com o passar do tempo, com a evolução natural da sociedade, os costumes foram mudando, mas as mães continuam tendo como preocupação primordial as crias que botaram no mundo. Daí ter-se complicado tanto a vida das mulheres que têm que combinar a profissão com a maternidade. E isso de alto a baixo, pois essa preocupação se repete em todas as classes sociais. Evidentemente que quando a situação financeira é confortável, há sempre a ajuda das babás, isso não tendo mudado muito desde os tempos longínquos. Mas, a mulher padrão, ou seja, aquela que só pode contar com ela mesma, vive uma situação não muito fácil. No entanto, a mulher considerada inteirada, aquela que está consciente de seu papel de cidadã do mundo, que trabalha e tem filhos, se sai muito bem na realização de suas tarefas. Conforme a apresentadora Ma Cândida, os papeis fundamentais de mãe, esposa, profissional definem a mulher e lhe dão segurança para que ela se sinta plena como ser humano, enquanto que a atriz Patrícia Sabrit diz que trata a maternidade da melhor maneira possível, pois quer que seu filho seja um ser humano do bem, feliz, seguro (http://delas.ig.com.br). 

Assim, nunca será demais homenagear a mulher-mãe, seja ela de que profissão for, pois artista ela já é, uma vez que desempenha o papel maior que já foi confiado a uma pessoa, que é gerar, criar, educar um ser humano, passar-lhe bons valores e soltá-lo no mundo, sem esquecer a voz do poeta que lhe diz que “ser mãe é ter um mundo e não ter nada”. 

Marluce A. F. Portugaels
Professora aposentada da UFAM e 
Consultora em Metodologia do
Ensino de Línguas Estrangeiras

Crônica publicada no JCAM, em 11/05/2011

Mulher Inteirada 
O mês de março passou e mais uma vez comemorou-se o Dia da Mulher, pairando no ar a pergunta sobre a importância de um dia da mulher. Como não existe um dia do homem, especula-se sobre a razão dessa dicotomia, considerando que homem e mulher têm os mesmos direitos e deveres. Reflitamos sobre isso. 

Sabe-se que, no Brasil, a mulher só teve direito à educação formal em 1827, e ao ensino superior em 1879. Data de 1932 o direito de votar da mulher. Em 1965, foi normatizada a prática esportiva feminina, mas são recentes conquistas como a Medalha de Ouro de Sandra e Jaqueline, do Vôlei de Praia, nas Olimpíadas de 1996. Recentemente, a capa da Veja São Paulo estampou a foto da primeira mulher brasileira na Fórmula Indy. Ao lado das conquistas já obtidas pela mulher, outras questões como, sua atuação na política, seu direito de interromper uma gravidez, sua submissão à violência doméstica, entre outras, não parecem receber o devido tratamento em nosso país, quiçá, em muitos países do chamado primeiro mundo. 

Mesmo mais ativa, hoje, na política, a mulher ainda não conseguiu quebrar a hegemonia masculina, como provam as sessões do parlamento brasileiro. E não porque a mulher seja omissa, pois ela está tentando conquistar seu lugar na política e em outros campos, atuando muito bem, salvo quando imita o homem. 

Na descriminalização do aborto dever-se-ia considerar a decisão da mulher de levar a termo ou não uma gravidez, pois se trata de mudanças em seu corpo e em sua vida. É falso usar o argumento, biologicamente correto, de que a mulher nasceu para dar a luz, uma vez que há mulheres que não aspiram à maternidade. Também é indefensável a tese de que se a mulher não deseja a gravidez, deveria tomar as devidas precauções. O ato sexual é de responsabilidade dos dois parceiros, e ambos deveriam precaver-se. 

A violência contra a mulher é antiga, remontando ao sistema paternalista, em que o homem, provedor da família, tem o direito de punir sua mulher, quando a mesma não segue as ordens de seu marido. Um grande avanço, no Brasil, ocorreu em 2006, com a Lei Maria da Penha, cujo objetivo é criar mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Mesmo com a Lei, a violência doméstica ainda grassa em nossa sociedade, especialmente, quando a mulher tem pouco acesso à informação. 

Voltando à pergunta inicial, um dia dedicado à mulher é importante para refletir-se não somente sobre as questões mencionadas, como sobre o indivíduo mulher. Tratar a mulher como vítima não a ajudará a realizar-se como ser humano. Essa condição, ela só galgará quando se tornar mulher inteirada, consciente de seu papel na sociedade, com direitos e deveres, responsável pelos seus atos. E isso só acontecerá com a educação. Enquanto a mulher for intelectualmente despreparada, ela será tratada com desrespeito. Quando essa barreira for derrubada, então, não haverá mais necessidade de um dia devotado à mulher.

Marluce A. F. Portugaels
Professora aposentada da UFAM e
Consultora em Metodologia do
Ensino de Línguas Estrangeiras 

Crônica publicada no JCAM, em 28/04/2010