SONIA NOGUEIRA
PORTUGUÊS
TEXTOS
 
TEXTO

*Tua Poesia é Vida

A poesia em ti é como as madrugadas,
Vem carregada de luz de harmonia,
O olho vai te lendo e silencia,
Como silêncio após as trovejadas.

Nem precisa de sol, de acrobacia,
Palavras vão rimando sem mistério
Mistério, que em vão burla critério
Nas mãos que corre rápida e fantasia.

Nas horas de saudade te releio,
E leio como vida que revive,
Bebendo da palavra o recheio,

Quase indefesa escondo uma senha,
Deixando o coração que sobrevive
Sonhar, sem apagar tição e lenha

Menção Honrosa

SoniaNogueira

O Peixe e o Pescador
Ah, como é bom meu habitat, isto é, o mar. Nada se compara a este imenso lar espaçoso, água com temperatura a gosto do freguês, alimento farto, mesmo uns engolindo os outros, faz parte da sobrevivência, coisas da natureza, inquestionável à nossa vontade.

Não fosse pelo aquele pescador caduco que nos persegue. Perseguia-nos, mas graças a Divina providência suas forças o abandonaram e espero que suas mãos hábeis à nossa cata e, para saciar sua fome fiquem inertes e nos deixem em paz. Mas, pensei torto, eis que vem vindo, Sentou-se a beira do mar, olhar distante, pensamento indeciso, talvez adquirindo coragem para voltar ao barco, atirar aquela isca assassina e feito viciado irrecuperável, nós os habitantes deste recinto, disputamos na dentada o petisco traiçoeiro.

Vou ser mais esperto, abocanho o naco e jogo o velho no mar e então servirá numa lauta mesa ao jantar desta noite com convidados especiais, os tubarões.

Ah, estou sangrando, me solta velho asqueroso.- Ajudem-me. Um cardume de companheiros veio em meu socorro, mas num solavanco inesperado, o velho jogou-me dentro do barco. Fitamo-nos. Eu com olhar de piedade, de vítima sem recursos, ele com olhar de glória, de vencedor sênior, visto que a força voraz da juventude fora-se no decorrer dos anos.

Senti piedade em seus olhos como se a conquista o tornasse sensível a ponto de me amar. Aproveitei a fraqueza, sim amor é fraqueza de sentimentos, os perversos são secos não amam Dei um salto tão forte que quase chego ao fundo do oceano. Respirei fundo para oxigenar as guelras, voltei à tona e lá estava o naco de carne, loucamente avancei de um salto.

É assim, repetimos o mesmo erro várias vezes, mesmo achando que maturidade e sabedoria, são lições a longo prazo. Engano.

Desta vez cai no laço, exausto e sem forças, eu estava estirado na areia da praia num vento acariciante sobre minha pele, olhares admirando-me saboreando no paladar a fritura com cebola. O velho desmaiou de tanta emoção, mostrando ao povo a façanha da força dita decrépita. Ainda ouvi vozes. – Ele mede dois metros, que pescado fabuloso e com os olhos embaçados vi a língua de o locutor massagear os lábios sentindo o paladar aguçado.

O velho cansado tocou meu corpo alisando-o como objeto de conquista, mesmo sendo a última. Alguém falou: A mesma força de quando derrubava no braço o adversário. O mundo escureceu, cumpri a missão alimentar o humano insaciável.

–*Através da Vidraça

O olhar se fixa na penumbra noite
Um vulto bebe a solidão, disfarça
Corpo e cama fria, o lençol, açoite
A brisa compartilha o vulto abraça

Uma mão amiga a mesma igualdade
Estende outra mão oferta desventura
Na face, a palidez, um véu disfarce
Cumplicidade em dupla amargura

A noite se agita, no sopra inquieto
A lágrima da neblina toca o corpo
No frio, o único abrigo indiscreto
Oferta a praça, abrigo tosco torso,

Na sinuosa correnteza dois olhares
Dois sonhares de infância perdida
Um mundo inútil sem seus altares
Mãos mendigando em despedida

A boca sequiosa afoita o paladar
Da oferta embrulhada num papel
A mente se turva encharcado, o pó
Noites testemunhas, dias com o véu.

Da Antologia Poetas Fel Mundo

*Anoitecendo

Sentada na areia da praia deserta
O vento corria, a onda se agitava
Grãos de areia meu rosto tocava
A mente contrita sonhava deserta

Vi tua imagem sem rosto, sem nome
Sorrindo sem face em névoas sombrias
O peito aflito em vãs utopias
Buscava um rosto um só sobrenome

O som das ondas em canto e silêncio
Domava a noite soltando gemido
E veio suave em tom comovido
Tocou meu semblante com sapiência

À noite chegando tranqüila sem véu
Abrindo os braços sem luz do luar
Fingiu que a pureza vem repousar
No sonho tormento que é só meu

Pingos da neblina roubaram emoção
As horas não alteraram o ponteiro
O sonho se afogou no nevoeiro
A imagem distorcida sumiu no clarão

Na Antolgia Poesias Encantadas